Exemplo de Fichamento e Análise de um Texto

O texto é um tecido de significados. No intuito de desvendar a lógica de sua estruturação, é necessário proceder com algumas técnicas para que possamos retirar dele suas idéias principais. Coloco aqui um exemplo de meus próprios estudos, para que fique mais claro como esse procedimento pode ser feito.

Primeiro Passo: Leitura Engajada do Texto

A leitura é um processo ativo. Ou seja, é preciso se debruçar sobre o texto e estudá-lo. Segue um exemplo da marcação de um capítulo de introdução do livro Ideologia: uma introdução, de Terry Eagleton.

Segundo Passo: Conteúdo dos parágrafos

Segue exemplo…

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp/Boitempo, 1997. Introdução (p.11-14) / Conteúdos dos Parágrafos

Primeiro Parágrafo: Paradoxo: eclipse do conceito de ideologia frente ao fortalecimento de movimentos ideológicos por todo o mundo.

Segundo Parágrafo: Hipótese teórica para a derrocada do conceito de ideologia na atualidade.

Terceiro Parágrafo: Hegel, repetição da história como tragédia e como farsa, dois momentos históricos: Fim da Ideologia (Final da Segunda Guerra Mundial) e Era Pós-Ideológica (Anos 80 e 90).

Quarto Parágrafo: Hesitação da antiga esquerda revolucionária para com questões “metafísicas” e os objetivos do livro.

Quinto Parágrafo: Poema de Thom Gunn.

Sexto Parágrafo: Ilustração do mecanismo ideológico pelo poema de Thom Gunn.

Sétimo Parágrafo: Em que consiste o estudo da Ideologia.

Oitavo Parágrafo: Afinidades entre Crítica ideológica e a Psicanálise – Diferenças entre “criticismo” (concepção iluminista/transcendental) e “crítica” (concepção dialética e material) – Critica da Ideologia em sua rejeição do transcendentalismo iluminista e em sua comunhão com o Iluminismo na confiança fundamental na racionalidade humana – Argumentação para sustentar a filiação da crítica ideológica com o iluminismo.

Nono Parágrafo: Agradecimentos

Terceiro Passo: Divisão em Unidades de Sentido

Quais as unidades ou blocos de sentido do texto? Na minha opinião…

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp/Boitempo, 1997. Introdução (p.11-14) / Divisão do Texto

Primeira Parte: Apresentação do Problema (parágrafo 1)

Segunda Parte: Hipóteses Explicativas (parágrafos de 2 a 3)

Terceira Parte: Razão da Necessidade de Estudo do Conceito de Ideologia e da existência do livro (parágrafo 4)

Quarta Parte: Panorama geral do Estudo da Ideologia, sua importância e seus mecanismos (parágrafos 5 a 8 )

Quarto Passo: Resumo do Texto

Importante: o resumo do texto deve sempre ser escrito com suas próprias palavras!!!

 

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp/Boitempo, 1997. Introdução (p.11-14) / Estruturação de Idéias (Resumo)

Na introdução, Eagleton começa por expor um paradoxo existente na sociedade moderna: de um lado o eclipse e a obsolescência do conceito de Ideologia como capaz de fazer uma crítica da realidade existente e do outro a ressurgência dos fenômenos e dos movimentos ideológicos em todas as partes do mundo. Para explicar tal absurdo, o autor aventa uma hipótese explicativa para entender porque o conceito de ideologia evaporou-se dos escritos pós-modernistas e pós-estruturalistas na atualidade. Para ele existem três doutrinas essenciais que explicam esse fato: 1. As doutrinas que pregam a rejeição da noção de representação e do modelo empírico; 2. As doutrinas que pregam um ceticismo epistemológico e advogam que o conceito de ideologia implicaria, em contra partida, uma indefensável idéia metafísica de verdade absoluta; e 3. As doutrinas que reformulam a concepção e a estrutura dos mecanismos de poder, feitas em bases nietzschianas, que tornam obsoleto toda a operacionalidade e capacidade de distinção do conceito de ideologia. Para o autor, o momento atual é a materialização da velha idéia de Hegel de que alguns eventos históricos (os de grande magnitude, pelo menos) às vezes se repetem. Dessa forma, o atual momento nada mais é do que a ressurgência do mesmo fenômeno que se deu ao final da Segunda Guerra Mundial, e que ficou conhecido como a época do “fim da ideologia”. Entretanto, o período do “fim da ideologia” podia ser explicado historicamente pelo trauma causado pelos crimes nazi-fascistas e pelo stalinismo. Já a era “pós-ideológica” dos anos 80 e 90 não possui nenhuma fundamentação política que autorize a derrocada do conceito de ideologia. Para o autor, a escola que preconizava a abertura de uma nova fase histórica conhecida como o “fim da ideologia” era claramente uma criação da direita política e tinha como objetivos deturpar e invalidar o próprio conceito de ideologia como ferramenta de crítica política e de emancipação. Acrescentando-se a isso, houve uma hesitação política da esquerda revolucionária tradicional que abandonou questões essenciais da sua luta política por serem, a partir de então, consideradas “metafísicas”, como: luta de classes, modos de produção, ação revolucionária, a natureza do Estado Burguês, além do próprio conceito de ideologia. Essa dupla ação de força centrípeta, ou seja, de um lado o arrefecimento dos conceitos ligados à ação revolucionária perpetrado pela direita política e, de outro, a própria hesitação das esquerdas constrangidas pelo horror stalinista, e posteriormente pela percepção do fracasso e colapso do sistema comunista soviético, explica em parte a decadência do socialismo, do marxismo e da força política da esquerda no período do pós-guerra até os anos 90. Dessa forma, Eagleton pretende esclarecer algumas das confusões da história conceitual da noção de Ideologia além de intervir politicamente em questões mais amplas, como revide a essa traição por parte dos intelectuais que se calaram frente ao avanço dessas concepções neutralizadoras do conceito de ideologia. Em seguida, o autor expõe de maneira sucinta em que consiste o estudo da ideologia como instrumento de emancipação política. Para Eagleton, esse estudo consiste em identificar as formas pelas quais os homens são capazes de investir em sua própria infelicidade e se tornam os arautos e reprodutores de sua própria condição de dominação. A ideologia possui mecanismos sub-reptícios e enviesados. Basicamente se estrutura da seguinte maneira: a condição de oprimido gera algumas compensações, e é por causa delas que os oprimidos estão dispostos a tolerá-la. Logo, o opressor mais eficiente é aquele que persuade os que vivem sob as condições de opressão a amar, desejar e se identificar com o seu poder, seja através de benefícios compensatórios seja pela existência da possibilidade de eles mesmos poderem exercer o seu poder sobre outros. Logo, para Eagleton, toda a prática de emancipação política encerra a forma mais difícil de libertação: a de si mesmo, ou seja, a destruição daquilo que em nós nos liga às condições de escravidão e opressão. Além disso, é importante ressaltar que a dominação deve exercer um suficiente grau de gratificação a suas vítimas, pois, caso o contrário, estas acabariam inevitavelmente se rebelando contra ela. Seguindo em sua explanação, Eagleton adverte que para que a crítica da ideologia funcione, é preciso que as intervenções que busquem desmistificar a ideologia façam sentido para o próprio sujeito que foi enganado. Nesse aspecto, a crítica da ideologia e a psicanálise possuem afinidades intrínsecas. A partir daí, o autor faz uma diferenciação entre o “criticismo” na sua acepção iluminista e a “crítica” (nos moldes proposto pela tradição marxista) no que tange o desmonte das ideologias dominantes. O “criticismo” parte para o ataque de uma posição racionalista, exterior ao sujeito e transcendental. Já a “crítica” busca habitar internamente a experiência do sujeito a fim de apontar para além das condições atuais de sua opressão. Assim, a crítica da ideologia partilha como o “criticismo” iluminista da concepção de que ninguém jamais está inteiramente iludido, de que mesmo aqueles que vivem sob uma situação de coerção nutrem desejos e esperanças que só poderiam ser realizados de maneira realista pela transformação de suas condições materiais de existência. Isso porque a “critica” partilha com a concepção iluminista a confiança fundamental na natureza moderadamente racional dos seres humanos, que uma vez libertados da causa de seus sofrimentos, reconheceriam que aquilo que desfrutam agora é o que desejariam anteriormente, caso tivessem podido estar conscientes disso. O argumento fundamental de Eagleton para ratificar tal confiança é de que se algum indivíduo fosse vítima incondicional da ação ideológica ele  sequer seria capaz de vislumbrar qualquer reivindicação emancipatória sobre si mesmo. Outro argumento para provar que ninguém é, ideologicamente falando, um completo tolo é que as pessoas ditas inferiores devem realmente ser ensinadas e aprender a sê-lo. Não é suficiente ser definido como uma forma de vida inferior, é preciso, além disso, ensinar aos oprimidos a desempenhar ativamente esse papel. Para o autor, é a incapacidade do homem de deixar de desejar, lutar e imaginar que torna possível a prática da emancipação política como uma possibilidade genuína.

Quinto Passo: Análise do Texto

Neste momento é preciso se colocar frente ao texto e exprimir quais as suas impressões do texto, o que você pensa sobre ele, quais são suas críticas e apontamentos relevantes. Segue…

 

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp/Boitempo, 1997. Introdução (p.11-14) / Análise

Nesta introdução, Terry Eagleton explicita os objetivos de seu livro, notadamente a revitalização do conceito de Ideologia como uma ferramenta de crítica da realidade, das condições materiais e subjetivas de opressão e como um instrumento de emancipação política, ou seja, como ferramenta necessária à luta revolucionária. Marxista como de fato é, o autor não poderia deixar de unir teoria e práxis, uma vez que a tentativa de revitalização do materialismo histórico leva o autor a promover uma intervenção política contra a direita e contra as três principais doutrinas pós-modernistas de nosso tempo: o relativismo, o absolutismo epistemológico (transcendentalismo) e o estruturalismo.

Essa declaração de guerra de Eagleton demonstra que o marxismo ainda possui um núcleo racional e revolucionário capaz de pensar a realidade e transforma-la. Outra coisa a se notar é como o pensamento e o conhecimento podem sofrer tanto uma distorção sistemática e servir para alienação dos indivíduos e como podem também, dentro de certas circunstâncias e condições objetivas, possuir um caráter libertador e de emancipação. Basta pensarmos sobre a educação da própria História nos livros didáticos escolares. Grande parte do nexo explicativo para diversos fatos históricos está calcada na esteira do pensamento marxista, ou seja, são explicados pelas relações entre infra-estrutura e superestrutura. Entretanto, esse conhecimento marxista que é assimilado pelos livros didáticos promove uma esterilização do marxismo em si, uma vez que promove a subtração do caráter revolucionário que a leitura de uma realidade social, presente ou passada, pode ter para o descortinamento das próprias condições de dominação as quais estamos todos submetidos. O marxismo é antes de tudo uma teoria da revolução. Os livros didáticos o transformam em mero instrumento de cognição, epistemológico, de conhecimento. Ou seja, uma teoria sem práxis, sem a ação direta no mundo.

Sexto Passo: Contribuições para uma Leitura Sinóptica

Toda leitura articula um conteúdo novo com conteúdos já conhecidos e absorvidos por nós em outras leituras. É interessante também proceder com uma leitura Sinóptica do texto. Ler sinopticamente é simplesmente ler outras obras que trabalham o mesmo assunto pelo qual você se interessa e proceder com o entrecruzamento crítico entre as diversas idéias de outros autores sobre o mesmo tema. Aqui segue apenas uma contribuição…

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Unesp/Boitempo, 1997. Introdução (p.11-14) / Contribuições para uma Leitura Sinóptica

Para compreender a derrocada do conceito de ideologia na sociedade contemporânea é preciso compreender a derrocada do materialismo histórico como um todo, dentro do contexto da ascensão do estruturalismo francês nos anos 60 e 70, se utilizando das análises de Perry Anderson em seu livro Nas Trilhas do Materialismo Histórico, no texto sobre Estrutura e Sujeito. Para compreender a crise da razão ocidental no contexto das teorias pós-modernistas e pós-estruturalistas é importante a análise de André Gorz em seu Metamorfoses do Trabalho ou Crítica da Racionalidade Econômica, no qual o autor diz que a crise atual da razão não é uma crise da racionalidade, mas sim a crise dos pressupostos irracionais da modernidade, ou melhor, a crise mesmo da racionalidade econômica tal como esta foi posta em marcha pelo industrialismo a partir do século XVIII e XIX.

Considerações Finais

Espero ter elucidado com um exemplo meu algumas das técnicas disponíveis para a boa leitura de um texto. Entretanto, é preciso ter em mente que esse exemplo é apenas um modelo possível, não a verdade absoluta. Outra coisa a se ressaltar é que esse tipo de leitura demanda muito tempo, logo não deve ser utilizada para todo texto ou livro a ser lido. Existem livros que podem ser compreendidos sem a necessidade de passar por nenhum destes passos acima colocados. Aos ratos de biblioteca de plantão que queiram saber mais sobre os procedimentos de uma leitura engajada eu recomendo o seguinte livro:

How to Read a Book

Abraços e boas leituras!!

Rodolfo Oliveira


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